Organizamos nossas vidas em torno de nosso trabalho, pois é ele quem nos propicia o dinheiro que garante as condições para viver. Vivemos em busca de mais dinheiro para obter mais conforto e felicidade. Essas duas frases dificilmente são questionadas por qualquer pessoa que viva no mundo ocidental. Os antropólogos demonstram que se outrora eram os laços de sangue que orientavam a organização das culturas, hoje o dinheiro é o elemento que organiza todo nosso sistema cultural e as formas como nos relacionamos com outras pessoas e com a própria natureza. Tudo parece tão claro e natural, que dificilmente paramos para pensar sobre os sérios problemas que podem estar envolvidos nessa busca pelo capital.
Enquanto o mainstream da Economia debate sobre concepções clássicas da Escola de Chicago, sobre a nova moda da Economia Comportamental e sobre as idéias da Freaknomics, e qual dessas concepções oferecem melhores modelos para entendimento das relações economicas estabelecidas entre as pessoas, há centenas de outros pensadores e ativistas produzindo idéias e conceitos de outra ordem.
Para demonstrar que há meios alternativos de se pensar as relações economicas entre pessoas, o economista inglês Mark Boyle encarou o desafio de passar 1 ano sem usar dinheiro. O que parecia ser impossível, demonstrou ser uma prova de que orientar as relações sociais e com a natureza para outras formas que não o dinheiro, produzem mais felicidade, bem estar e integração com pessoas e com o planeta. A concepção de Economia proposta por Boyle e que já ganhou centenas de adeptos pelo mundo chama-se Freeconomy (”economia livre”).
A premissa básica da Freeconomy é que as pessoas devem agir no mundo buscando as gratificações naturais produzidas por essas ações. Não é necessário dinheiro para fazer com que as pessoas façam algo, se essas ações produzirem consequências naturalmente reforçadoras. Para que isso funcione, é preciso desenvolver sensibilidade para notar que as próprias interações sociais e que a conservação do ambiente em que se vive pode ser fonte de muita felicidade. Compartilhar, ensinar, ajudar, trocar, etc. são comportamentos mais importantes do que comprar e vender. É isso o que Boyle tenta demonstrar com seu projeto.
No vídeo abaixo chamado “Guia para Freeconomy” é apresentado um exemplo simples de como a cooperação ou colaboração podem ser gratificantes pelo mero fato de tornar outra pessoa feliz ou capaz de seguir seu caminho, sem necessidade de haver troca monetária. O exemplo é simples, mas serve para ilustrar a idéia…
Vale a pena conhecer o site criado por Boyle - chamado just for the love of it (”apenas pelo prazer de faze-lo”) - em que há interessante fórum de debates sobre estratégias para se viver com menos dinheiro e mais felicidade e as notícias diárias sobre como é a vida de alguém que não usa dinheiro, em plena Inglaterra, mas que vive com conforto e satisfação de viver bem. (clique aqui entrar no site).
Ao ler as idéias de Boyle é impossível não lembrar da utopia skinneriana Walden II, ou da comunidade Los Horcones. Embora haja um sistema monetário em Walden II (representados pelo valor atribuído aos diferentes tipos de trabalho), lá há claramente uma organização social que é baseada mais no afeto das interações sociais do que no dinheiro produzido por meio do trabalho. Talvez a proposta skinneriana seja o meio termo mais viável entre a utopia de Boyle e o mundo capitalista doente em que vivem hoje.
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